8. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 5.9.12

1. A ONA-PINTADA PEDE SOCORRO
2. ALM DE MARTE

1. A ONA-PINTADA PEDE SOCORRO

Depois da arara-azul e do mico-leo-dourado, chegou a vez de o maior felino das Amricas precisar de ajuda. Pesquisadores brasileiros e britnicos concluem que a espcie tem menos de um sculo de vida na Mata Atlntica
Larissa Veloso

NO ATIRE - Vista como um estorvo por pecuaristas, a ona-pintada pode gerar mais renda viva do que morta
 
Maior felino das Amricas, a ona-pintada corre o risco de existir apenas nas notas de R$ 50. Considerado um dos animais-smbolo da diversidade da fauna brasileira por ser encontrado em quase todos os biomas do Pas, o bicho j figura na lista de espcies vulnerveis do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis). Agora uma nova pesquisa, feita pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e pela Universidade de East Anglia no Reino Unido, surge para confirmar os temores dos ambientalistas. 
Ao estudar trechos de Mata Atlntica do Nordeste brasileiro, os pesquisadores constataram que  pouco provvel que esses animais vivam na regio nos prximos 100 anos. Os poucos indivduos encontrados aparecem em locais extremamente isolados, em matas pequenas e fragmentadas, o que diminui em muito a chance de essas populaes serem viveis, diz Gustavo Canale, um dos autores da pesquisa. 
 
Caa e diminuio do habitat fizeram com que hoje existam apenas 250 onas-pintadas em toda a Mata Atlntica, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade (ICMBio). A Amaznia  a regio que ainda abriga a maior populao, cerca de 10 mil dos estimados 13 mil exemplares adultos do animal em territrio nacional. A pesquisa de Canale revela tambm que outros quatro grandes mamferos podem ter o mesmo destino na regio (leia quadro).
 
Mas h humanos dispostos a lutar pela sobrevivncia dos bichos. No interior do Pantanal, a 230 quilmetros de Campo Grande, um grupo tem mudado a viso local sobre as onas-pintadas. Dois brasileiros (Mario Haberfeld e Marcelo Mesquita de Salles Oliveira) e um zimbabuano (Simon Bellingham) decidiram aproveitar o potencial turstico desse animal e criaram o Onafari, passeio no qual os turistas observam de perto o felino. A populao recebeu muito bem o projeto. Por eventualmente caar o gado, a ona-pintada  vista hoje como uma geradora de prejuzos para a pecuria, principal atividade local. Por outro lado, o animal pode gerar receita com o turismo, o que tem interessado a muitos donos de terra, explica Haberfeld.
 
O Refgio Ecolgico Caiman, onde os passeios acontecem, j recebeu mais de 200 visitantes interessados no Onafari, entre turistas de outras regies do Pas, da Europa e dos Estados Unidos. Uma iniciativa que demonstra que, viva, a ona-pintada tem potencial para gerar uma pilha com as notas de real que estampam a sua efgie.


2. ALM DE MARTE
Avanos histricos possibilitados pelo rob-jipe Curiosity so um prlogo da explorao espacial do futuro, com a qual vamos ver cada vez mais longe e melhor
Juliana Tiraboschi

Na tera-feira 28, a msica Reach for the Stars, do lder do Black Eyed Peas, will.i.am, foi transmitida pela sonda Curiosity em Marte. Confira, em vdeo, cenas desse momento histrico e oua a cano:

No ltimo dia 25, o mundo deu adeus ao astronauta americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. Ele morreu aos 82 anos, de complicaes causadas por uma cirurgia cardaca. Armstrong  o maior smbolo de uma poca da explorao espacial em que a prioridade era fazer um humano caminhar por outro astro, mais por propaganda que por interesse cientfico. Hoje e pelos prximos anos a astronomia tem como objetivo maior ver melhor e mais longe. Da a primazia de sondas, telescpios e misses sem humanos a bordo. Para o futuro, cientistas estudam a alternativa de mandar astronautas para perto de outros corpos celestes, mas sem pousar a espaonave  operao sempre delicada. Ser a era da telepresena, em que a tripulao ir comandar equipamentos remotamente, mas a poucos quilmetros do objeto de estudo.
 
Enquanto esse futuro no chega, a explorao espacial no deixa de produzir avanos histricos, como os protagonizados pelo rob-jipe Curiosity, que a Nasa fez chegar a Marte. O veculo pousou no dia 6 de agosto e j enviou vrias imagens em alta resoluo do planeta vermelho.  o prlogo das descobertas que viro e das possibilidades de pesquisa abertas pela misso. Por enquanto, ainda estamos reconhecendo terreno e testando o funcionamento de todos os equipamentos, diz o brasileiro Ramon de Paula, executivo do programa para Marte da Nasa e responsvel pelas sondas orbitadoras Odissey e Mars Reconnaissance, equipamentos que transmitem as informaes da Curiosity para a Terra.
 
O objetivo principal do Curiosity  fazer anlises da composio do solo e da atmosfera de Marte, principalmente em regies onde h sinais de que j houve gua, e procurar por evidncias de que o planeta j abrigou alguma forma de vida microscpica. H 4,6 bilhes de anos, quando Marte e Terra se formaram, os planetas eram muito semelhantes  por isso  relevante investigar as mudanas geolgicas e climticas pelas quais nosso irmo passou. O planeta  to importante que a Nasa j anunciou o sucessor do jipinho. Em 2016 a agncia planeja enviar para l o InSight. Esse rob carregar uma broca capaz de fazer perfuraes mais profundas do que a Curiosity. Ou seja, vai poder fazer anlises mais detalhadas sobre o tipo, composio e estado fsico do solo. Alm disso, a InSight levar equipamentos para medir a intensidade de processos ssmicos.
 
Essas misses tambm servem de preparao do terreno para o envio de um astronauta a Marte  tarefa dificlima, mas no impossvel. Estima-se que uma misso tripulada seja possvel a partir de meados da dcada de 2030. Antes disso, no incio de 2020, pode ser que j consigamos enviar veculos que no apenas faam anlises no local, como a Curiosity, mas que tambm enviem amostras marcianas para estaes espaciais posicionadas prximas ao planeta (leia quadro). Seria a inaugurao da era da telepresena. Esse  um avano levado a srio principalmente pela Nasa. Outros institutos de pesquisa espacial planejam investir ainda muito tempo e dinheiro em misses no tripuladas com sondas e telescpios.
 
A Agncia Espacial Europeia (ESA, na sigla em ingls) pretende explorar outros cantos do universo que no Marte. Na segunda metade de 2013 decolar a Gaia, espaonave que vai passar cinco anos coletando informaes para a confeco de um mapa em terceira dimenso da nossa galxia. Mais para a frente, em 2015, a ESA lanar a BepiColombo, em parceria com a Agncia Japonesa de Explorao Espacial. A nave vai viajar at Mercrio, o planeta mais prximo do Sol. Ele  um planeta estranho, e o menos estudado. Essa misso vai ser importante para entendermos melhor o Sistema Solar, diz Fabio Favata, chefe de planejamento cientfico da ESA.
 
Em 2017, ser a vez do projeto Solo, que pretende chegar o mais perto que j estivemos de nossa fonte de luz e calor. O objetivo da misso  entender como o Sol produz a heliosfera, uma bolha formada por ventos solares que envolve todo o sistema e influencia o campo magntico da Terra. Dois anos depois entrar em cena o Euclides, telescpio espacial que ter a misso de elucidar um dos maiores mistrios: a expanso cada vez mais veloz do universo.
 
Enquanto isso, aqui no Brasil, o governo aposta em programas espaciais mais, digamos, ps no cho. Entre os principais projetos est o do Veculo Lanador de Satlites, o VLS, revisto e modificado depois do acidente trgico com o foguete VLS-1. No dia 22 de agosto de 2008, uma exploso na base de Alcntara, em So Lus, Maranho, matou 21 tcnicos que preparavam o lanamento do veculo.
 
Uma das primeiras providncias foi a reviso do projeto do VLS-1 com a cooperao de especialistas russos, diz Jos Raimundo Braga Coelho, presidente da Agncia Espacial Brasileira. Vrias recomendaes j foram incorporadas, entre elas a realizao de diversos ensaios para garantir a confiabilidade e integrao completa dos subsistemas do veculo, afirma. A agncia estima que o voo do VLS deve acontecer em 2015. Depois de aprender como, a os cientistas podem decidir o que colocar no espao.  a chance para que o Pas deixe a condio de plateia e passe a tambm ser protagonista no espetculo da explorao espacial.
